quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Como irmãos siameses...


 
Como uma boa dona de casa e mãe, moradora de uma cidade do interior, me acostumei (e adoro) ouvir “causos”, principalmente no portão da escola, enquanto espero a saída das crianças. A muito tempo atrás ouvi um que me desencadeou a série de pensamentos a baixo...

Ele é mais ou menos assim (como todo bom causo ninguém afirma 100% de nada): A Tia da vizinha da minha amiga ficou viúva, más contrariando todas as expectativas e regras sociais, após uma noite inteira de velório e de enterrar seu esposo logo pela manhã, naquele mesmo dia, à noite, a digníssima senhora foi para o baile. Dizem “as más línguas” que ela se acabou de dançar, tendo sido a 1ª a chegar e a última a sair. E que, ao ser questionada se aquele era um comportamento correto, ela respondeu: “Não vou a um baile a 37 anos e 9 meses por que meu marido não gostava de ir, e mesmo tendo me conhecido em um, também não me deixa ir sozinha! ”

Bom, rimos muito, fizemos piadinhas, aplaudimos e condenamos o comportamento da senhora, simultaneamente, más claro que essa história ficou em minha mente aquele dia inteiro, a noite toda e grande parte da manhã do outro dia ...

Quando casamos achamos lindo, romântico, ouvimos frases como “metade da laranja” como verdadeiras afirmações do que vem a ser o amor, nos esquecendo que ali há dois seres distintos, totalmente formados e independentes (ao menos, mentalmente) de outros seres.

Com o passar dos anos, se não tomarmos cuidado e vigiarmos muito, começamos a nos esquecer de quem somos. Você já não pensa mais no singular (Eu, você, ele), agora você é plural (vocês, nós, eles) ... A simbiose está começando...

Pouco a pouco esse casal começa a se fundir (ok, cabe uma piada maldosa aqui), aquele cuja a personalidade é mais, digamos, flexível, começa aos poucos a ceder espaço para o outro. No começo são coisas bobas, filmes na tv, sabor de sorvete no mercado, música que toca no carro, onde vai isso ou aquilo na casa, (se vai ou não ao baile)... nada que realmente faça falta naquele momento. É tudo em nome do amor! 

Mas o tempo continua passando, a fusão continua acontecendo, e quando menos se espera vocês já não são dois, são um. Más ainda é capaz de enxergar beleza nisso. Se convidam um, automaticamente o outro está sendo convidado; se é amigo de um, automaticamente o outro vai conviver; se um gosta, o outro começa a pelo menos curtir também...Pronto, vocês começaram a virar siameses!

Isso mesmo, vocês agora serão como irmãos siameses. “Que exagerada! ”, “Ih, papo de mulherzinha frustrada! ”, más, se você procurar o significado desse termo, encontrara, em meio a um mar de nomes científicos e termos técnicos, a seguinte descrição: ”... são gêmeos idênticos separados que se unem em alguma fase da gestação por partes semelhantes...”. Reformulando essa sentença para “são pessoas com afinidades que se unem em alguma fase da vida por gostos semelhantes”, teremos, ao meu ver, a mais perfeita definiçção do que vem a ser um casamento.

Como siameses, vocês começam a compartilhar muito mais do que uma cama, um objetivo em comum, passam a compartilhar também gostos, idas a lugares e até mesmo, órgãos, nesse caso, filhos! Agora vocês têm uma ligação permanente. Muitas vezes você nem se dá conta disso.

Daí um belo dia, num desses acasos qualquer, você reencontra alguém que, acredite se quiser, só conheceu você! Isso mesmo, conheceu você em sua forma original, solo, e em uma pergunta boba como “Você ainda escreve? ”, ou, “Você ainda gosta de dançar? ”, te faz viver um milésimo de segundo de luto por você mesma. “Eu escrevia? ”, “eu dançava? ”, você se pega pensando, enquanto sorri para aquela criatura, que ousa se lembrar mais de você do que você mesma, e ouve de seus próprios lábios saírem sons de justificativas desencontradas. Se pega balbuciando coisas aleatórias, como filhos e correria diária... a verdade é que você já não se lembrava mais de nada disto!

E essa mesma “criatura” afirma, não questiona, a tua felicidade. Bom, afinal você tem casa, filhos, carro, casamento estável, como não seria feliz? Quem em sã consciência questionaria isso? Bom, você se questiona.

Em um ato de total rebeldia você troca a marca do ketchup, muda de estação de rádio, de canal na TV... Você começa a querer fazer algo apenas por você querer. Talvez faça aquele curso de dança de salão, aprenda finalmente piano ou francês...

Em muitos casos a outra metade se adapta, se adequa, e mesmo com possíveis efeitos colaterais (resmungos, falta de apoio e caras feias), você ainda consegue executar pequenos rompantes de egoísmos. E assim a simbiose segue, não parecendo mais um fardo tão pesado. O problema está em quando isso não ocorre.

Agora vocês são 1, com 1, 2 até mesmo 3 “órgãos” compartilhados, más com 2 mentes distintas. E como 2 mentes, ou até mesmo almas, únicas, as mudanças que o tempo ocasiona pode não ter sido igual para ambos. Se os objetivos mudaram?  Se as afinidades e gostos semelhantes se perderam na jornada? Se os anseios não se completam mais? Talvez não haja mais motivos para ceder. Claro que a saída mais óbvia seria uma intervenção, uma separação.

Más uma separação seria um processo arriscado a essa altura. Uma cirurgia de altíssimo risco diria, onde não se tem plena certeza se ambos sobreviveriam, se os órgãos realmente poderiam ser compartilhados e se os mesmos se regenerariam saudáveis ... E, como bom ser humano que é, o medo surge. O sentimento de autopreservação mais primal que temos aparece. “Como isso em pleno século XXI? ” você questiona. Só não se esqueça de que as pessoas não são formadas por contagem de tempo, más sim por sentimentos. Por mais antiquado que possa parecer, o medo de envelhecer sozinho existe. E por quê passar por um processo tão arriscado e acabar se fundindo novamente, só que agora tendo que lidar com “alguns meios órgãos” resultantes da separação?

Daí voltamos ao causo da senhorinha lá de cima, ela se libertou apenas porquê a outra parte da simbiose se foi? Isso é uma afirmação arriscada, pois poderia ter sido ela a ir primeiro.  Se ela contava o tempo de casada ou o tempo que ficava sem ir ao baile, ninguém poderá afirmar ao certo.  Se estava certa ou errada também. Se ela tivesse sido separada “cirurgicamente” quem poderia garantir a sobrevida dela? Ninguém é infeliz durante 37 anos e 9 meses por livre e espontânea vontade! Alguns pontos de felicidade com certeza ela teve. 
 
A única coisa certa é que ela estava ali, após 37 anos e 9 meses, sendo ela novamente.... Certa ou errada, apenas ela....

2 comentários:

  1. Amei! Texto extremamente inteligente e reflexivo. Amiga vc é cheia de surpresas. Mas eu acredito em um cirurgião (Deus) que é capaz de separar nossas mentes e manter nossos corações ainda unidos. Assim podemos ser "nós" sem deixar de ser "eu". Bju te amo amiga. Parabéns ! Aguardo o próximo . Mamadri

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    1. Obrigada linda! Amei que você foi a 1ª a comentar! Bjux mil!!

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